De 15 para 3 dias de trabalho manual por mês: o sistema de gestão que construí numa indústria
Fui o primeiro profissional de dados de uma indústria metalúrgica de médio porte, com mais de dez anos de ISO 9001. Em quatro anos, levei o dado da planilha copiada à mão a uma plataforma de 68 telas que a empresa usa todos os dias. Descrito sem o nome da empresa e sem valores financeiros.
- Desafio
- A empresa já media tudo — à mão, com atraso e com erro. A diretoria só sabia o que tinha acontecido no fechamento do mês.
- O que fiz
- Tornei o número confiável, automatizei a coleta e a entrega e, sem verba para uma ferramenta de BI, construí com IA a plataforma de gestão da empresa.
- Resultado
- Menos trabalho manual, carteira de clientes acompanhada no prazo, mais contatos comerciais e uma usinagem sem pontos cegos.
- Meu papel
- Único profissional de dados: da regra de negócio ao código, à operação e ao treinamento das equipes.
Antes e depois
- Trabalho manual com relatórios 15 dias/mêspara3 dias Mais de 60 horas por mês de relatórios que hoje se atualizam a cada 10 minutos e chegam sozinhos por e-mail e WhatsApp.
- Saúde da carteira de clientes 55para74 Em três meses. Os clientes com contato vencido caíram 39%.
- Contatos comerciais por mês ~20para100+ Desde que assumi as campanhas de Google e Meta Ads, rastreadas do clique ao faturamento.
- Jornada da usinagem sem registro ~30%para~4% O que era buraco virou setup, parada e manutenção medidos.
Como evoluiu
Quatro etapas — cada uma resolveu o que a anterior deixou à vista:
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2022
Tornar o número confiável
Centralizei os chamados ao fornecedor do ERP recém-implantado — com o tempo, eles caíram mais de 80% — e fiz o relatório de vendas bater no primeiro mês.
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2023
Automatizar a coleta
A extração do relatório de vendas passou a vir por API. Nasceram o acompanhamento comercial e a movimentação de clientes mês a mês.
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2025
Assumir novas frentes
Aprendi cada regra da meritocracia e liguei a apuração aos indicadores; montei com a diretoria as metas do ano a partir do histórico; assumi a mídia paga e o plano de cargos e salários.
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2026
Virar sistema
Sem verba para BI, um protótipo feito com IA cresceu até 68 telas, 64 rotinas automáticas e três bancos de dados.
Três decisões que pesaram
Começar pelo menor passo útil, não por uma ferramenta pronta
A meta de 2026 era dar à empresa o seu BI. O primeiro protótipo foi a planilha de vendas de todo dia, aberta no navegador e atualizada sozinha. Cada entrega usada de verdade abriu a próxima, até virar um sistema sob medida para o jeito de a empresa trabalhar.
Alternativa rejeitada — Contratar uma plataforma de BI: de R$ 20 a 30 mil de implantação, mais R$ 3 a 4 mil por mês, e nenhuma dava a autonomia de personalização que o trabalho pedia. Fiz o protótipo com versões gratuitas de IA, paguei o primeiro mês de assinatura do meu bolso e, depois das primeiras entregas, a empresa assumiu.
Consertar a medida antes de automatizá-la
A produtividade da usinagem tinha uma meta que sempre batia: o indicador não comparava o tempo produzido com o disponível e aceitava absurdos como 1.500%, vindos de um tempo padrão cadastrado errado. Antes de pôr o número em tela, refiz a régua — rendimento com teto por sessão e ociosidade calculada cruzando o relógio de ponto com os apontamentos.
Alternativa rejeitada — Automatizar o indicador como estava. Teria entregado mais rápido um número errado, com cara de oficial.
Construir com IA — e manter o controle fora dela
A IA acelera a escrita do código, com agentes especializados por área. A regra de negócio, a arquitetura e a verificação ficam comigo: cerca de 3.400 testes automatizados, decisões documentadas e um manual escrito para que o sistema não dependa nem de mim nem de uma IA para continuar de pé.
Alternativa rejeitada — Aceitar o que a IA entrega sem verificação, ou escondê-la. A primeira produz um sistema que ninguém sabe consertar; a segunda é uma omissão que a primeira pergunta de entrevista desfaz.
Detalhes técnicosNúmeros do sistema, arquitetura, stack e outras decisões
O sistema em números
- 68telas em 20 seções
- 264tabelas e views em 3 bancos
- 64rotinas agendadas
- ~3.400testes automatizados
- 309melhorias publicadas em 4 meses
- ~30acessos com senha por dia útil
Arquitetura
Stack
- Python
- PostgreSQL
- SQL
- Streamlit
- cron + travas
- pytest
- Playwright
- Node.js (WhatsApp)
- nginx
- IA aplicada
Outras decisões
- O dado entra por rotina agendada e a tela lê o banco próprio — como regra. As poucas telas que ainda consultam o ERP ao vivo são justamente as que sofrem quando ele cai.
- A operação registra no sistema — refugo, não conformidades, calibração, ajustes e o resultado das pesquisas de pós-venda, com alerta à Qualidade quando é preciso abrir uma RNC. Não estava no plano: veio das ideias de quem usava.
- Entrega automatizada — painéis por e-mail e WhatsApp de manhã, modo TV na fábrica e alertas de pendência. A fila de contato e o radar de oportunidades devolvem de 2 a 3 horas por semana a cada vendedor.
- Remuneração com trilha auditável — a meritocracia, que custava uma manhã do financeiro a cada folha, hoje leva 30 minutos de conferência, e qualquer valor é reconstruível a partir do dado que o gerou.
- Desempenho como requisito — numa auditoria de consultas, a mais pesada do CRM caiu de 2.196 ms para 16 ms com um índice.
- Auditoria contra a nuvem — comparei a plataforma com nuvem gerenciada, orquestradores e data warehouses pagos. A conclusão foi migração seletiva, não total.
Aprendizados
- Os três anos de planilha foram o levantamento de requisitos. Enquanto eu absorvia a regra de negócio, os processos da ISO eram refinados para facilitar a coleta. Quando o sistema chegou, encontrou o processo pronto — não foi automação de processo ruim.
- Dado confiável muda decisão, não só relatório. Com os números da usinagem enfim confiáveis, ficou claro que um auxiliar de produção melhoraria o desempenho dos operadores — e a empresa contratou. Com a medição antiga, a mesma análise não teria convencido ninguém.
- A parte difícil não é o dashboard, é a definição da métrica. A produtividade que sempre batia a meta e o indicador de acessos que contava recarregamento de página — 73% do total — tinham o mesmo defeito. Nos dois casos, corrigi a definição, não o número.